Olá, pessoal.
Espero que tenham gostado de conhecer a Dona Bebel, ainda que pela net. Mas vamos à viagem. Chegamos ontem (11) a Assaré, municípío em que nasceu o maior poeta popular brasileiro, Patativa do Assaré. De lá seguimos para o Crato, pois a BR-230 simplesmente acaba em Assaré para recomeçar em Farias Brito, município próximo. O problema é que não há condução possível de Assaré direto para Farias Brito sem ser por Crato ou Juazeiro do Norte. Fizemos um pequeno desvio (não deu nem 60 km) de nossa rota original. Em viagens como essa, o improviso é quase um método. Hoje já estamos em território paraibano, mas essa história conto em outro post. Agora, só faltam 650 quilômetros (segundo o Google Maps) para terminarmos nossa jornada. Ufa!!!
Feita essa explicação técnica, falemos de Assaré. Ela foi uma das poucas cidades brasileiras que tiveram a decência de homenagear sua estrela maior enquanto ela estava viva. Em 1999, foi inaugurado o Memorial Patativa do Assaré, uma espécie de museu com objetos pessoais, livros, discos, cordéis e reportagens sobre o poeta. Patativa ainda teve tempo de dar palpites na organização do acervo antes de morrer, em 2002.
A obra de Patativa, que nasceu Antônio Gonçalves da Silva, é uma das mais ricas em matéria de literatura popular brasileira. Ficou conhecido como Patativa depois de uma passagem pelo Pará, quando tinha 20 anos de idade. Lá, seu canto foi comparado ao pássaro de nome patativa. A história dele é muito curiosa. Sua primeira viola, com a qual tirava repentes durante suas viagens, ele conseguiu trocando uma cabra por ela.
Teve livros publicados em diversos idiomas e seus textos estudados por universidades renomadas como a francesa Sorbonne. Virou herói do sertão por cantar a dor e o sofrimento do homem sertanejo. Seus poemas tinham um forte tom de crítica social.
Em Assaré, conversamos com um de seus parceiros, Geraldo Gonçalves, a quem Patativa chamava de sobrinho. Na realidade, eram primos de segundo-grau. Geraldo era um dos preferidos do poeta para conversar e fazer poesia.
- Ele era viciado em poesia. Se você o chamava para conversar qualquer coisa, ele ficava chateado e logo não lhe dava atenção. Mas se fosse para fazer poesia, ele ficava alegre e ficava horas conversando e versando – diz Geraldo.
Geraldo diz que a velocidade com quem Patativa criava versos o assustava, ainda mais pelo fato de ele o fazer apenas
em sua mente.
- Ele gostava de desafio. Então a gente dava um mote e eu pegava papel e caneta. Quando eu terminava, eu dizia: Patativa, acabei. E ele respondia que já tinha acabado também. Daí ele dizia o verso. Quando eu pedia para ele repetir para eu anotar, ele repetia igualzinho da primeira vez. Sem nenhuma palavra trocada – lembra o poeta.
Patativa morreu em 2002, aos 93 anos. Não enriqueceu com sua fama. Mesmo depois de reconhecido internacionalmente, seguiu sua vida de agricultor. Sua família recebe, hoje em dia, algum dinheiro dos direitos autorais, mas muitos de seus filhos ainda vivem na mesma roça onde o pai nasceu. Mesmo morto, Patativa segue vivo em Assaré. Um exemplo são as placas que indicam as ruas da cidade. Junto dos nomes das vias, elas trazem trechos de poemas conhecidos do poeta.
Há alguns anos, a casa onde Patativa nasceu e viveu foi restaurada. O Governo do Ceará pretende construir um Museu do Agricultor no local. Nada mais justo em se tratando da morada de um dos maiores defensores do agricultor brasileiro e, especialmente, nordestino. Infelizmente, é uma pena notar, como fizemos ao longo dessa viagem, que algumas das mazelas cantadas pelo poeta do sertão continuam afligindo os nordestinos.
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Geraldo Gonçalves com um de seus livros posando em frente à Universidade Patativa do Assaré (UPA), centro de difusão de sua obra e venda de livros e artesanato / Euzivaldo Queiroz

Sala do Memorial Patativa do Assaré. O prédio recebe 11 mil visitantes por ano / Euzivaldo Queiroz
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Sertanejo tange o jumento carregado com água na comunidade de Carmelópolis / Euzivaldo Queiroz